Estresse, depressão e ansiedade desafiam as empresas.

Uma vez por semana, os funcionários da Mercado Livre, em São Paulo, param o que estão fazendo para relaxar. A ginástica laboral de 15 minutos é praticada em áreas verdes ou na própria academia que a empresa mantém para os colaboradores. A companhia também oferece sessões de massagem que podem ser agendadas pela internet, além de ambientes tranquilos e até uma biblioteca. Com um índice de engajamento e felicidade de 96%, a companhia é a exceção a um panorama cada vez mais preocupante no cenário corporativo: os altos níveis de estresse e doenças mentais.

Uma pesquisa realizada pela Universidade de Brasília (UNB) em parceria com o Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) apontou que 48% dos trabalhadores que se afastam do emprego por mais de 15 dias enfrentam algum transtorno mental. Em âmbito global, a tendência é a mesma. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) preveem que a depressão será a maior causa de afastamento no mundo até 2020.

Embora os números sejam preocupantes, poucas empresas se atentam a este panorama. Um levantamento realizado pela consultoria Mercer, que avaliou 267 companhias de médio e grande porte, mostrou que apenas 18% das organizações contam com um programa de saúde mental. Apenas 5% delas possuem psicólogo em suas dependências e 46% sequer planejam investir em melhorias na área.

Médico da Associação Paranaense de Psiquiatria (APPSIQ), Carlos Augusto Maranhão de Loyola explica que situações estressantes são inevitáveis no dia a dia. Mas, completa, as empresas devem estar atentas para prevenir qualquer estresse prolongado, que pode acabar culminando em transtornos depressivos e ansiosos, a depender da predisposição genética e comportamental de cada funcionário. Isso pode afetar não apenas o ambiente corporativo, como também a carreira de bons profissionais.

Para o coordenador do curso de psicologia da Universidade Positivo, Raphael Di Lascio, as companhias podem tornar a rotina dos trabalhadores mais amena por meio de ações de qualidade de vida. Ainda segundo o psicólogo, equipes de recursos humanos devem avaliar constantemente o desempenho dos setores se utilizando destas análises como termômetro para verificar quando algo não está bem.

Por meio de avaliações internas, a Mercado Livre analisa os ganhos efetivos das muitas ações de bem-estar que promove para funcionários. É oferecendo benefícios e medindo periodicamente a satisfação de seu pessoal que a empresa tem conseguido driblar o estresse. Segundo a gerente de RH, Helen Menezes, uma pesquisa interna da empresa revelou um aumento de 15% na favorabilidade dos trabalhadores. “Nosso objetivo é cuidar do funcionário sob uma perspectiva integral, buscando o equilíbrio entre sua vida profissional e pessoal. A boa saúde mental é um resultado que a gente colhe nesse processo”, explica.

Perspectiva holística

Especialistas orientam que trabalhar a saúde do funcionário de maneira integral é uma forma eficaz de afastá-lo do estresse e auxiliar na prevenção de doenças mentais. O Grupo Algar é um bom exemplo disso. A empresa possui dois programas de desenvolvimento – um para executivos e outro para os demais colaboradores – fundamentados em quatro esferas da saúde: a biológica, a fisiológica, a emocional e a nutricional. Periodicamente, profissionais acompanham de perto cada funcionário e avaliam em quais âmbitos ele está bem ou não para poder agir sobre qualquer problema identificado. “Com esse trabalho, ganhamos funcionários mais saudáveis e engajados”, conta a diretora de talentos humanos da companhia, Sandra Domingues.

A Ericsson é outra empresa a aliviar a tensão emocional dos seus colaboradores sob uma perspectiva holística. A organização oferece incentivos à prática de esportes realizando eventos de corrida dentro da própria empresa e chegou a organizar uma campanha que reduziu em 70% seu número de fumantes. A diretora de RH da Ericsson no Brasil, Janaína Khatchikian, conta que após a implantação destas iniciativas as pessoas se tornaram muito menos ansiosas.

Saber ouvir

Conhecer de perto as necessidades dos colaboradores é um dos caminhos para prevenir e ajudar a reparar quadros graves de estresse, depressão e ansiedade. As preocupações de muita gente podem estar relacionadas a problemas em casa, no escritório ou mesmo de cunho financeiro, sem que nenhum gestor se dê conta disso. Para acompanhar de perto casos assim, o Embracon, abriu um serviço telefônico 0800 disponível para funcionários da empresa em todo o país. Por meio do programa, que é totalmente sigiloso, o trabalhador pode receber aconselhamento de profissionais como psicólogos, advogados e consultores financeiros e, quando necessário, é encaminhado para um atendimento presencial. “Muitas vezes, a pessoa pode ser orientada com apenas uma ligação, não precisando prolongar o pensamento que a afeta”, explica a gerente da área de pessoas e resultados do Embracon, Brenda Donato.

A Ticket desenvolve um projeto parecido. A empresa mantém um canal telefônico disponível 24 horas por dia, sete dias por semana, com especialistas que apoiam os colaboradores em momentos difíceis, relações familiares controversas e problemas financeiros e jurídicos. “Cuidados como este influenciam o estado de saúde físico e emocional das pessoas, proporcionando maior saúde mental e bem estar tanto no trabalho quanto na vida pessoal”, defende Ricardo Amaro, diretor de Recursos Humanos da Edenred Brasil, que engloba as marcas Ticket, Accentiv’ Mimética e Repom.

Mente em xeque

Os problemas da mente mais comuns nas empresas:

Estresse: é um estado de tensão frente a situações alarmantes. Quando o indivíduo sofre um estresse prolongado pode desenvolver doenças mentais, como transtornos de ansiedade e transtornos depressivos, a depender de sua predisposição genética e comportamental.

Transtornos de ansiedade: o paciente ansioso tende a estar sempre alerta, preocupado e angustiado. Em geral, se acha atrasado e vive como se uma catástrofe estivesse prestes a acontecer.

Transtornos depressivos: falta de energia e esperança e alterações no sono e na alimentação podem indicar transtornos de depressão. O depressivo, em geral, tem pouco interesse na vida e pode apresentar agitação ou lentidão psicomotora.

Síndrome de Burnout: conhecida como a doença do esgotamento profissional, a síndrome pode unir sintomas de transtornos depressivos e transtornos de ansiedade e geralmente se manifesta quando o trabalhador se doa muito e não identifica nenhuma valorização ou contrapartida. Segundo o psiquiatra Carlos Augusto Maranhão de Loyola, os primeiros casos do problema foram identificados na década de 1970 em profissionais de saúde que tratavam dependentes químicos e que, com a recaída dos pacientes, viam seu trabalho perder o sentido. Hoje é uma das doenças mais comuns nas empresas.